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Da competição à cooperação: Como o trigo mudou com a agricultura

Da competição à cooperação: Como o trigo mudou com a agricultura iStock

A evolução do trigo cultivado foi significativamente influenciada pela competição por luz e espaço, num processo evolutivo que favoreceu plantas mais rápidas e competitivas, segundo um estudo internacional publicado na revista Current Biology.

A investigação, liderada por cientistas da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, analisou a forma como as primeiras práticas agrícolas moldaram as características do trigo ao longo de um período estimado entre 1.000 e 2.000 anos.

 

De acordo com os resultados, o cultivo em campos organizados criou um ambiente altamente competitivo, onde as plantas que cresciam mais rapidamente e conseguiam superar as vizinhas tinham maior probabilidade de sobreviver e reproduzir-se.

Segundo a análise, este processo levou ao desenvolvimento de variedades com características descritas como mais “competitivas”, incluindo folhas maiores, crescimento mais ereto e maior capacidade de continuar a crescer em condições de elevada densidade.

 

Para compreender estas alterações, os investigadores recorreram a modelos de simulação do crescimento das plantas. A análise identificou o ângulo das folhas como um fator determinante: plantas com folhas mais eretas conseguiam captar mais luz e sombrear as restantes, ganhando vantagem nos estádios iniciais de desenvolvimento.

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O estudo evidencia, no entanto, uma mudança significativa na evolução do trigo em sistemas agrícolas modernos.

 

“Embora a evolução tenha favorecido concorrentes fortes, a agricultura moderna adensou as plantações nos campos para obter altos rendimentos. Essa prática exige culturas capazes de cooperar em vez de competir”, afirmou Colin Osborne, professor da Universidade de Sheffield.

Neste contexto, a melhoria genética passou a privilegiar variedades menos competitivas, com folhas mais pequenas e caules mais curtos, direcionando a energia das plantas para a produção de grão. A utilização de fertilizantes e herbicidas reduziu também a necessidade de competição direta entre plantas.

 

Os resultados apontam para uma transição estrutural na evolução do trigo, de culturas adaptadas à competição em sistemas agrícolas primitivos para variedades selecionadas para cooperação em sistemas intensivos, com implicações para o melhoramento futuro desta cultura.