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Inovação

Produzir insetos para farinha

produção de insetos

Produzir insetos pode ser uma ‘cultura’ com futuro. Mais proteicos do que um bife de vaca, os grilos parecem ser uma boa alternativa para a produção de farinhas para integrar quer em alimentos compostos para animais, quer numa ótica de enriquecimento nutricional para alimentação humana.

A alimentação à base de insetos não tem qualquer tradição em Portugal. No entanto, pode estar para breve. Dois jovens empresários de Famalicão lançaram um projeto de criação de grilos, destinados a farinha que irá integrar alimentos processados.

Para já, a Delight Bugs vai centrar-se na produção de grilos. Joana Cardoso, formada em Biologia e Alimentação, e Tiago Almeida, licenciado em Gestão e Marketing, são os promotores deste projeto e já foram contactados por empresas de grande dimensão.

“Esta ideia nasceu do cruzamento ‘quase’ acidental de uma brincadeira entre mim e a Joana, no decorrer duma formação de empreendedorismo, em Vila Nova de Famalicão, em novembro de 2013” – adianta o empresário. Tiago Almeida diz lembrar-se de ter dito, à futura sócia, que lera uma notícia em que um japonês “usava uma pequena máquina, similar à do café, de onde todos os dias, de manhã, tirava uma porção de grilos para o pequeno-almoço”.

De acordo com Tiago Almeida, o tema foi debatido, “em tom de brincadeira”, mas acabaram por aprofundar a pesquisa. Assumiram que iriam “tornar mais um possível projeto comum”, após se terem apercebido de que será viável e rentável. “Além de concordarmos fielmente no impacto que este poderia gerar a nível global” – salienta o empresário.

Joana Cardoso e Tiago Almeida afirmam que a farinha de insetos é uma forma sustentável para a alimentação humana de todo mundo. “Dada a consistência da matéria-prima usada, e das suas características inerentes, podemos afirmar que, em termos nutricionais e ambientais, é uma alternativa mais que válida para a sustentabilidade da alimentação a nível mundial. Neste caso em concreto, a transformação do inseto em farinha acrescentará, do nosso ponto de vista, um enriquecimento nutricional aos produtos ditos ‘tradicionais’ ou que, porventura, fazem uso das chamadas farinhas ou fontes de proteína tradicionais” – salienta Tiago Almeida.

grilos (3)

Tiago Almeida e Joana Cardoso

Joana Cardoso realça que, na mesma proporção, a farinha de grilo “contém duas vezes mais proteína que um bife e tanto ómega 6 como um salmão”. A empresária sublinha que atualmente 2000 milhões de pessoas consomem insetos diariamente, de acordo com informações da FAO (Food and Agriculture Organization), organismo da Organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura.

Esta farinha pode ser utilizada em alimentação humana, mas também na de animais. “Em termos de mercado reconhecemos que a ambição de atingir segmentos específicos ao nível da alimentação humana tem os seus ‘entraves’, mas a persistência leva ao sucesso, e sem desafios não há motivação. É bom sentirmo-nos no meio da roda, mas não deixarmos de a rodar” – sentencia Tiago Almeida.

Em termos humanos, a farinha de insetos – no caso de grilo – é utilizável em suplementos proteicos ou, “ao nível de enriquecimento nutricional de processos de fabrico, de panificação, bolachas, cereais, entre outras aplicações” esclarece o empresário, assumindo que esses são segmentos que lhes interessam alcançar.

“Existe um número ilimitado de aplicações, desde barritas energéticas, suplementos em pó extremamente ricos em proteína, ração para animais, até aos cereais de mel e grilo ou ainda pão de elevado valor nutricional. Existe uma diversidade de produtos que podem estar na iminência de serem trabalhados com esta matéria-prima limpa, ecológica e sustentável. Fica ao critério das indústrias e da imaginação dos seus técnicos, embora acreditemos que a procura aumentará e os consumidores ditarão as suas regras impondo as suas necessidades” – afiança Tiago Almeida.

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Tiago Almeida refere que, devido à tendência crescente de necessidades de proteínas, “a indústria alimentar já reconheceu e validou o seu interesse”. O empresário garante ter sentido interesse pelo produto, da parte de vários segmentos. “Estamos recetivos a novas parcerias e sinergias, que nos permitam solidificar e ajudar a evoluir sustentavelmente este negócio” – afirma Tiago Almeida.

Entre os interessados há “quatro empresas de renome”, afirma o empresário. “Não esperaríamos menos, afinal de contas a inovação acompanha os melhores, os audazes estão na linha da frente, correm riscos e acreditam no potencial de novos e por vezes ‘inusitados’ produtos. Não iremos adiantar nomes, mas queremos desta forma passar a imagem de que existe espaço, no mercado global, para o nosso produto e essa procura já foi previamente validada. Aos interessados, deixamos uma mensagem de ‘radicalismo racional’”.

“EXISTEM 1900 ESPÉCIES DE INSETOS CONSIDERADOS COMESTÍVES”

Os grilos podem ser apenas os primeiros duma lista mais vasta de insetos. “Dada a quantidade de espécies comestíveis existentes, é natural que, numa segunda fase, avancemos e testemos novos sabores e produtos”, conta Joana Cardoso. A empresária refere que existem 1900 espécies de insetos considerados comestíveis, pelo que desafia a que se imaginem cruzamentos de texturas e sabores. Larvas deverão ser o animal seguinte.

“Optámos pelos grilos por ser uma espécie já conhecida, estudada e utilizada em alguns processos similares. Optámos ainda pelo facto de ser uma matéria que corresponde às nossas expectativas nutricionais. Estamos satisfeitos por termos iniciado esta caminhada utilizando grilos no processamento, pois permitiu-nos analisar, observar e detetar eventuais entraves e problemas ao lidar com esta matéria-prima”, adianta Joana Cardoso.

grilos - laboratório

Sabendo que o uso de insetos na alimentação humana não tem tradição ou relevo nas sociedades ocidentais e que, por isso, possam surgir sobressaltos, a escolha pelos grilos dá algumas garantias. Tiago Almeida acrescenta: “Deu-nos a experiência e o know-how necessário para nos precavermos assim que avançarmos para novas espécies”.

Todavia, muitas das questões colocadas aos responsáveis da Delight Bugs ficaram por responder. Joana Cardoso e Tiago Almeida nada disseram acerca de dificuldades quanto a aprovações, por parte de entidades públicas portuguesas, nem de que ordem foram essas eventuais dificuldades ou quais as instituições que levantaram objeções, ou pediram esclarecimentos. Por responder ficaram as questões relacionadas com autorizações comunitárias ou especificação nos rótulos, se assumindo a especificação de uso de insetos ou como um elemento da vasta lista de “E”.

“A UNIÃO EUROPEIA, ASSIM COMO OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, IMPÕEM QUE SEJAM ESTUDADOS OS IMPACTOS DE NOVOS ALIMENTOS OBTIDOS A PARTIR DE FONTES NÃO CONVENCIONAIS”

Quanto ao modo, condições e necessidades para a produção, os empresários optaram igualmente por não adiantarem informações. Assim como no que se refere a investimento e seu retorno financeiro.

A União Europeia, assim como os Estados Unidos da América, impõem que sejam estudados os impactos de novos alimentos, obtidos a partir de fontes não convencionais, tanto para uso humano direto como para fornecimento a animais. Uma questão de segurança alimentar e de saúde pública, que ganhou mais força após a crise da encefalopatia espongiforme bovina (BSE).

Artigo publicado na edição de março de 2015 da revista VIDA RURAL