Tecnologia ao serviço da pecuária

Tecnologia ao serviço da pecuária

Com uma exploração de mil vacas de leite em produção, a tecnologia e a genética são os pilares no Vale da Lama. A única forma de rentabilizar e tirar todo o proveito desta actividade. Sobretudo numa época em que os preços à produção têm vindo a baixar drasticamente. Os investimentos vão continuar e Angola é a próxima aposta.

São mil vacas em produção permanente. No total, estabulados, à volta de dois mil animais. Um número elevado, pouco comum no nosso País. E que espelha bem a ambição da Sociedade Agrícola do Vale da Lama, na Chamusca, de produção em larga escala.

As produtividades rondam os 30 litros de leite por dia/vaca. No total diário, três mil litros. Valores que são conseguidos com três ordenhas diárias. Mais uma do que o tradicional, mas através da qual obtêm mais 10% de leite por dia. O reverso da medalha é o desgaste animal. As vacas, de raça Holstein Frísia, têm cerca de três lactações ao longo do seu ciclo produtivo, ao fim dos quais são vendidas para refugo. As três ordenhas realizam-se entre as 06h e as 13h, as 14h e as 22h e as 22h e as 06h. São ordenhadas 48 vacas de cada vez. O processo dura seis minutos. O objectivo é que seja mais breve.

Por isso, em 2011, vão investir numa nova sala de ordenha. Serão 250 mil euros para tornar este espa-ço mais moderno e o processo mais rápido. A este valor acrescem mais 300 mil euros utilizados para a melhoria do conforto animal. Uma área em que já têm vindo a trabalhar. Dotaram todos os estábulos de colchões de borracha e instalaram escovas automáticas para os animais se poderem coçar. Além do sistema Unifeed para agilizar o processo de alimentação. Até porque trabalham com sete dietas diferentes, em função do animal ser de alta/média/baixa produção, da sua idade e outras condicionantes.

A melhor genética…

No total, o Vale da Lama tem uma quota anual de produção de 110.500 toneladas de leite. Que consegue com esse sistema intensivo de ordenha. As produtividades diárias, de 30 litros, são redu-zidas no Verão para cerca de 28 litros. Uma diferença menos acentuada do que o normal. Possível apenas com os sistemas que têm vindo a instalar. “Temos, em toda a vacaria, ventiladores em que, quando a temperatura chega a um certo grau, começam a funcionar. Temos ainda acoplados aos ventiladores um sistema para criar uma nuvem de água e baixar a temperatura ambiente. Na zona onde estão os animais existem também sistemas de pulverização de água, para manter a temperatu-ra ideal”, conta um dos sócios-gerentes da propriedade, Orbílio Martinho do Rosário.

Mas, para as produtividades elevadas, os principais contributos são mesmo dados pela genética. E pela rapidez de actuação. Os animais têm um transponder, um chip que analisa o acumulador de actividade. Quando as vacas estão a ser ordenhadas transmitem para o sistema esse grau de acti-vidade, o que permite perceber quais os que estão em cio. Esses animais são automaticamente sepa-rados e inseminados. Um sistema que, indica o responsável, “é 95% fiável”. Os restantes 5% “consegue-se através da observação visual”.

A inseminação é feita com sémen geneticamente superior. De touros altamente produtivos em leite, proteína, longevidade e com facilidades de parto das novilhas. Gastam, em média, 40 a 50 euros por dose de sémen. Um “grande investimento”, reconhece Orbílio Martinho do Rosário, mas que vai ao encontro da “política” de qualidade e eficiência da empresa.

Têm apostado ainda na utilização de sémen sexado para obter um maior número de fêmeas do que de machos. Tendencialmente nascem 48% de fêmeas e 52% de machos. Agora, já conseguem obter 51% de fêmeas. O objectivo é que essa percentagem chegue aos 60%.

A taxa de sucesso da inseminação artificial é positiva. Cerca de 30% de confirmação de gravidez na primeira inseminação. “Normalmente, as vacas, para ficarem prenhas, necessitam de três insemina-ções”, sublinha o responsável. Para melhorar a eficácia deste processo adquiriram um scanner que confirma o diagnóstico vários dias antes do que aconteceria por palpação manual do técnico.

… e a melhor qualidade do leite

Todo este investimento na genética e nas questões do conforto animal têm resultados directos. Na produtividade, mas, também, na qualidade do leite. Até porque recebem prémios de acordo com a percentagem de proteína, células somáticas, gordura, entre outros parâmetros.

O leite só é vendido se tiver um máximo de 250 mil células somáticas. A média no leite do Vale da Lama é de 150 mil. O normal numa exploração leiteira, diz Orbílio Martinho do Rosário, são 400 mil. Nas bactérias, ronda as 50 mil por animal. O tecto são as 100 mil. “Este é o nosso valor acrescenta-do”, assegura o responsável.

Para manterem a qualidade têm depósitos de arrefecimento. O leite ordenhado atinge mais de 20 graus e entra nos depósitos isotérmicos a 3,5 graus. Daí sai, duas vezes por dia, para os camiões do cliente.

70% da ração produzida internamente

E porque, numa dimensão destas, a economia é fundamental, o Vale da Lama investiu, desde o início, na racionalização e na autonomia da produção. Um exemplo claro é a ração animal. 70% é pro-duzida internamente, nos seus 500 hectares, divididos em milho e azevém, ambos para silagem. São 11 mil toneladas anuais de silagem. Uma independência fundamental para a sustentabilidade da exploração, realça o sócio-gerente da empresa: “Um projecto destes não era viável se tivéssemos de comprar a maioria da ração fora”. Os 30% que adquirem são pré-misturas de soja, colza, que não se produzem nacionalmente.

A autonomia alarga-se também ao consumo de água. Introduziram um sistema de lavagem em que os detritos animais são empurrados por ondas de água para uma lagoa. Aí, os detritos sólidos são retirados por um separador e lançados nos campos como fertilizantes. A água é depois decanta-da nas outras duas lagoas da exploração e reutilizada na irrigação dos campos. “Assim, a água não se perde e temos um circuito fechado, quer na água, quer nos dejectos animais”, salienta Orbílio Martinho do Rosário.

Preços em queda

São investimentos que permitem uma maior racionalização da produção. E especialmente impor-tantes nesta fase, em que os preços pagos à produção têm sofrido quedas acentuadas. Este ano deverão ser de 30 cêntimos/litro de leite. Um valor que, indica o responsável, “não se verificava desde 2002”. Quedas que começaram em 2008 e que “estão no limite da sobrevivência das empresas”, considera. Espera que, mesmo que não voltem a atingir os picos de 2008, os preços subam para “algo intermédio”. E, considera, “numa exploração como esta, um valor satisfatório rondaria os 40 cên-timos/litro”.

A venda é feita em exclusivo à Danone. Têm o contrato estabelecido desde 2006. A empresa cliente compromete-se a comprar o leite contratado e até mais 10% da produção.

Maior efectivo e internacionalização

Nos próximos anos, a propriedade do Vale da Lama pretende prosseguir com os investimentos. Na exploração, através da nova sala de ordenha, das questões do conforto animal e da compra de um pasteurizador industrial. Com esta aquisição, a rondar os 30/40 mil euros, deixam de comprar leite em pó para alimentar os novilhos. Um custo que chegava aos 60 mil euros anuais. Agora, o leite das vacas que não é vendido, por não cumprir os requisitos previstos, será pasteurizado e dado às novilhas.

A par com esta aposta em tecnologia e produção, o objectivo é crescer. Mais 10%, para chegar, em um ano, aos 1100 animais em produção. Um aumento que deverá ser orgânico, com a reposição do efectivo internamente, sem necessidade de compra de novilhas.

Entre 2010 e 2011 as atenções do Vale da Lama estarão também na internacionalização. O intuito, replicar a estrutura de produção em Angola. Um investimento de 20 milhões de dólares e que implicará, como dita a lei angolana, ter 50% da exploração afecta a parceiros locais. Serão mil vacas em lactação. A área, dois mil hectares, para conseguirem produzir 90% das necessidades ali-mentares dos animais. As produtividades das vacas deverão ser mais baixas – 75% das que se registam em Portugal, para cerca de 20 litros diários. E vão ainda incorporar uma unidade de processa-mento e enchimento, que não têm em Portugal. “Vamos ter a cadeia toda. Só faz sentido, em Ango-la, ser assim, por causa das questões de distribuição”, considera Orbílio Martinho do Rosário.

O empreendimento será concretizado por fases. As terras já estão preparadas, o milho semeado e, quando estiver praticamente pronto a ser cortado para silagem, chegam os animais. Um projecto ambicioso que deverá estar em pleno funcionamento dentro de um ano.