Hortofrutícolas

“Precisamos de ferramentas idênticas às de outros Estados-membros”

A viver um período de enorme incerteza, mas também de reinvenção de modelos de negócio, os produtores portugueses de frutas, legumes e flores têm enormes desafios pela frente. Em entrevista à VIDA RURAL Gonçalo Andrade, presidente da Portugal Fresh, faz o ponto de situação do mercado em tempo de pandemia e acredita que o e-commerce veio para ficar. Isto se a produção souber concentrar a oferta numa plataforma online conjunta.
Quais foram as culturas mais afetadas pela crise de mercado na área dos hortofrutícolas e flores?

Dentro das frutas, legumes e das plantas ornamentais, o maior problema está nas plantas ornamentais porque houve uma série de mercados que pararam completamente. O setor não é pequeno: em 2019, no seu todo, as frutas, legumes e flores chegaram aos 3.079 milhões de euros de valor de produção e exportaram 52% da sua produção. E o valor da produção de flores são cerca de 600 milhões de euros, ou seja, representam cerca de 20% do total.

Neste setor das plantas e das flores temos um período crítico entre a semana 10 e a semana 22, que corresponde ao período de maior produção e de maior exportação. E nada fazia prever uma situação destas. Quando estivemos, em janeiro passado, na feira alemã IPM Essen já havia algum ‘burburinho’ e algumas geografias mundiais já não foram ao evento. Mas as empresas portuguesas que participaram debaixo do chapéu da Portugal Fresh saíram de lá com a sua produção completamente vendida e a fazer planos para ter uma produção maior em 2021.

Nesta altura (e falo por estas seis empresas que tem volume de negócios de 35 milhões de euros e empregam 500 pessoas, 400 das quais são permanentes) podemos dizer que entre a semana 11 e a 16 estas empresas perderam mais de cinco milhões de euros. Houve mercados completamente parados, como o mercado espanhol, o francês e o Reino Unido que não fizeram qualquer encomenda de tudo o que estava previsto. O único mercado que continuou a funcionar, mas abaixo do que o era normal, foi o mercado holandês, que mesmo assim tem garantido algum escoamento de plantas.

Este setor está a passar um momento extremamente dramático porque precisa que haja algumas medidas transversais a nível europeu. Não são só os produtores portugueses que estão nesta situação, os espanhóis e franceses também têm perdas na cada dos 80 a 90% da sua produção, e a nossa estimativa é que vai ser um 2020 desastroso em valor. Até onde é que vamos recuar? Seguramente que vamos ter um impacto global na casa dos 50% de redução, e isto olhando para o ano numa perspetiva de que a atividade possa retomar qualquer coisa dentro de algumas semanas. Vai haver um grande tombo neste setor e vamos ver como é que as empresas conseguem retomar a sua atividade económica, até porque muitas já colocaram trabalhadores em lay off.

Disse que o mercado holandês não parou. Porquê?

Tem a ver com as restrições impostas em cada país. Enquanto que em muitos países os garden centers tendencialmente fecharam, na Holanda conseguiram manter-se ativos e tem muito a ver com isso…

Tem dados que indiquem se houve melhoria no consumo nas últimas semanas?

A procura dos consumidores, numa primeira fase, decresceu abruptamente porque não era um bem essencial e houve retração no consumo. Depois disso houve uma ligeira retoma, mas não é minimamente relevante nem é o que as empresas precisam. A situação não está com a dimensão das últimas quatro semanas, há alguma retoma na procura, mas com encomendas muito, muito abaixo para o expectável nesta do ano quer a nível interno quer externo. As empresas continuam numa situação muito complicada a nível do escoamento.

Está previsto algum apoio mais específico para este setor ou mais orientado para os floricultores?

Temos estado em contacto muito estreito com o Ministério da Agricultura, com a senhora ministra e o senhor secretário de Estado da Agricultura e Desenvolvimento Rural, na tentativa de sensibilizar para a necessidade de outras medidas para além do lay off, que algumas empresas já aproveitaram, e do apoio à Tesouraria e do pagamento de algumas obrigações fiscais. Estas medidas são de uma importância extrema e ajudam no imediato, mas não resolvem o problema de fundo. O que defendemos é que devia existir uma medida a nível europeu que ajudasse à retirada de produto, porque é uma situação completamente excecional e um contexto que apanhou todos de surpresa. Espero que haja algum bom senso na criação de uma ajuda específica para este setor, será muito importante para conseguir que a atividade continue.

Relativamente aos outros setores, houve um problema grave nos frutos vermelhos e foi rapidamente acionado o mecanismo de retirada do mercado. Como é que está a situação destes produtores? Os mercados fecharam-se ou existem problemas logísticos?

Ao falarmos das frutas e legumes, e do que se passou no último mês, e meio é preciso fazer um ponto de situação de como normalmente funciona o nosso mercado. 85% das nossas exportações são para a Europa e apenas 15% para países terceiros. Não nos podemos esquecer que Espanha representou 30% das nossas exportações nos últimos cinco anos, são mais de 490 milhões de euros anualmente. Tem uma importância extrema nas nossas vendas e é neste momento um dos países que mais sofre com esta pandemia. Depois temos países como a França, a Holanda, o Reino Unido e a Alemanha que são os mercados que vêm a seguir no ranking das nossas exportações e que também foram fortemente afetados. Depois é importante realçar uma situação que é a seguinte: metade das compras de frutas e legumes que se consomem em Espanha são feitas nos mercados abastecedores. Espanha tem mais de 20 mercados abastecedores, tem uma rede fortíssima que maioritariamente fornece o canal Horeca, o food service, os cash e carrys, e estes canais diminuíram abruptamente. E, como disse, isto em Espanha significa 50% do mercado. E noutros países há um impacto semelhante, há grandes redes de mercados abastecedores que embora continuem a funcionar estão a funcionar em muito menor quantidade.

Depois é preciso esclarecer algumas ideias feitas como o reforço do consumo de laranjas. Não nos podemos esquecer que o volume de laranja vendido para o canal Horeca era fortíssimo… os sumos de laranja que se vendiam nos cafés ao pequeno almoço, as saladas de fruta nos hotéis e restaurantes, tudo isso desapareceu… Os produtos de categoria II estão com enormes dificuldades de escoamento, todos os produtos mais ‘feios’ que eram escoados neste circuito que está praticamente parado deixaram de ter mercado. Há uma tendência de mercado atual que condiciona as vendas. É evidente que houve um aumento enorme das vendas online e das entregas em casa, mas há também uma menor procura uma vez que as pessoas deixaram de ir tantas vezes ao supermercado e esta menor frequência no ato da compra afeta o cabaz. E quando compram frutas e legumes optam por produtos com maior longevidade…

Compram mais peras e maçãs e menos morangos, por exemplo…

Sim, e mais frutas com casca porque ainda há medo de consumir, embora tenha sido esclarecido quer pela DGS quer pela OMS que não há problema no consumo destes produtos desde que se tenham os cuidados habituais. Temos de entender que há desafios grandes porque neste momento há falta de canais para o escoamento dos produtos. E os hábitos também se alteraram, as alfaces e os pequenos frutos numa primeira fase sofreram mais. Bem como os produtos de categoria II como lhe falei.

E não podemos comparar produtos que estão agora nas suas colheitas com produtos que já foram colhidos há meses e em que a maioria da comercialização já ocorreu…

O problema está nos produtos que estão a ser colhidos agora e sem possibilidade de conservação…

Sim, não temos essa possibilidade e por isso sofremos com a menor procura. Os pequenos frutos passaram os 238 milhões de euros de exportações e dependem muito do mercado externo. A procura abrandou completamente, os custos de produção aumentaram, porque há uma maior dificuldade na procura de trabalhadores e há maiores custos a nível de transporte, porque os camiões voltam vazios do centro e norte da Europa. Os próprios transportadores só podem ir com um motorista em vez de dois, demoram mais tempo, os processos burocráticos nas fronteiras complicaram-se, em suma, temos processos mais lentos e mais onerosos. Acresce que ao haver menos procura os preços também baixaram. Temos menos mercado e menos remuneração por quilo dos nossos produtos. Algo que já era previsível com a existência de menos canais e menos procura. O planeamento da produção foi feito para um mercado muito maior do que o que temos agora, mas nos pequenos frutos com um impacto muito grande porque são os líderes das exportações. Principalmente a framboesa que exporta mais de 180 milhões.

Temos alguns números concretos desta quebra?

Ainda não tenho dados oficiais da quebra, mas houve semanas onde houve dificuldades de escoamento de 20% da quantidade disponível. Depois disso já houve alguma retoma. Mas no preço a quebra foi muito acentuada, devemos estar a falar de quebras da ordem dos 25% a 40%, conforme os produtos. E vamos ver se não se acentua ainda mais. Foram tomadas algumas medidas importantes, como ficarmos em situação idêntica à de outros Estados-membros que já tinham a questão da retirada de mercado prevista. É importante dizer que estas situações de retirada de mercado estão previstas numa medida do programa operacional das Organizações de Produtores, a medida ‘Prevenção e Gestão de Crises’ que é limitada a 5% do volume total de quilos que as OP transacionam, mas foi uma medida muito importante que o Governo tomou. Mas as OP vão ter de reestruturar os seus programas para incluir esta ação em detrimento de outra. Não há nenhuma colocação de um valor de Estados-membros. São verbas 100% comunitárias que no fundo estão a ser reestruturadas dentro do estava aprovado antes da pandemia. Não deixa de ser muito importante termos conseguido incluir os pequenos frutos nas retiradas de mercado, medida que não estava prevista na estratégia nacional. Mas há uma preocupação muito grande, porque nos últimos 10 anos duplicámos as nossas exportações, é bom referir isso. Este percurso pode ficar em causa se não conseguirmos ter ferramentas idênticas às de outros produtores de outros Estados-membros, e isso é algo que nos assusta. Esperamos que todas as medidas que venham a ser adotadas sejam transversais aos produtores da União Europeia. Tem de haver pacotes ligeiramente adequados a cada realidade e não haver produtores espanhóis e italianos com ferramentas completamente diferentes dos portugueses, caso contrário vamos ficar ainda pior quando sairmos daqui. Estamos a competir no mercado global e, se tivermos medidas mais curtas, será muito complicado reativar a nossa economia.

Nos hortícolas, houve algum produto com mais dificuldades?

As alfaces foram um dos hortícolas com mais dificuldades de escoamento quando surgiu a pandemia. Nos embalados e lavados esta situação não se notou tanto, mas o consumo global desceu em todos os produtos, isso é algo que não conseguimos contornar…

Mas houve uma resposta muito rápida… As alfaces a granel passaram logo a ser vendidas em embalagens de plástico… A perceção que temos é que as empresas se adaptaram com uma enorme rapidez nos processos de segurança, caso das centrais hortofrutícolas…

Sim, essa perceção é completamente real. O setor evoluiu imenso nos últimos anos, com grandes investimentos, com muita formação e temos empresários neste setor do melhor a nível mundial, não vejo aí grande surpresa. Rapidamente todas as empresas adotaram os planos de contingência com todas as recomendações e muitas delas acima do que a DGS recomendaria. As empresas tiveram uma reposta à altura.

O que é o setor perspetiva? O que vai ficar desta aprendizagem e o que pode ficar de estruturante para o futuro?

É difícil fazer previsões, mas no nosso setor temos uma vantagem grande. O consumidor, para manter uma vida saudável, tem de manter hábitos de consumo que assentem em dietas equilibradas. E as frutas e legumes fazem parte disso, a tendência é para crescer a cada ano e todos os estudos apontam nesse sentido. Por outro lado, algumas situações que estamos a viver como tendências atuais vão ter uma evolução muito grande. O online vai crescer mais depressa do que todos estimaríamos antes desta pandemia. Estes hábitos embora, não fiquem completamente, vão ditar uma tendência muito maior na compra de frescos online, algo onde havia muitas resistências…

O Gonçalo tem muito falado nos últimos anos, em vários fóruns onde participa, dessa tendência crescente do online nos frescos noutras geografias…

Na Portugal Fresh temos essa sorte. Desde há alguns anos que partilhamos estudos de mercado e de tendências e damos sempre dois exemplos online no comércio de frescos: a FreshDirect nos Estados Unidos e a FruitDate na Ásia, ambas com vendas muito consideráveis a nível dos frescos. A tendência é clara e andamos a tentar sensibilizar todos os empresários do setor para apostar fortemente neste canal. Acho que ninguém nos ouviu muito bem, mas agora vão lembrar-se bastante desta mensagem que tentámos passar nos últimos anos…

É um canal que tem de ser mais explorado e vai ter um peso muito grande. A previsão era que o online de frescos em 2030 representasse 7%, mas esse valor vai ter de ser revisto a seguir a uma pandemia deste género, vai ser bastante superior a isso… embora no 7% já era um valor a ter em conta. Mas agora ainda fará mais sentido.

A questão da embalagem vai ser outro desafio? Andámos a tentar desincentivar a embalagem plástica nos últimos tempos, mas com as questões de segurança onde é que fica a questão da desplastificação nos alimentos?

Estávamos a trabalhar numa direção, mas agora há novos desafios que vão ser transversais a todos os setores dos produtos alimentares. Vamos ter, pelo menos, de repensar nos próximos tempos e não sabemos o que o consumidor vai escolher.

Regressando ao e-commerce. Acredita que a maioria das empresas nacionais foi suficientemente ágil ou teve capacidade para responder bem nesta fase?

Vemos algumas situações interessantes, algumas empresas do universo da Portugal Fresh, como a Vitacress que lançou uma loja online recentemente. É uma tendência que vai começar a ser seguida por outras empresas. Nas plantas já havia algumas empresas com vendas online e que terão uma tendência crescente a esse nível. A questão logística é um desafio e é crítica para o sucesso. Se surgirem mais projetos vai ser mais fácil conseguir rentabilizar processos e aliciar as empresas logísticas para estes desafios. Entregas porta-a-porta têm custos elevados, mas surgindo um grande volume de empresas que estejam interessadas em desenvolver este canal a implementação vai ser mais rápida. Porque a apetência para a compra online cada ano que passa é maior.  As gerações mais novas não querem outra coisa. Os millennials dentro de cinco anos serão cerca de metade da força mundial de trabalho e começam a determinar os canais onde compram. Vai ser mais fácil captar a atenção desta geração para este género de compras porque é o que gostam e nem se revêm noutro género de compras.

Em determinada altura os produtores tiveram de ser tornar vendedores e entrar no marketing e vendas. Acredita que esta pode ser uma oportunidade para a criação de plataformas ou estruturas logísticas do lado da produção?

Eu penso que nesse ponto se podem fazer parcerias com empresas de transportes.  Vejo mais uma parceria da produção na parte de uma plataforma online que concentre a oferta, isso poderá ser uma realidade no curto/médio prazo. Os produtores já perceberam a mais valia de promoverem os seus produtos conjuntamente.  E mesmo estas reações de conseguirem arranjar alguns canais alternativos em situações tão difíceis como a que estamos a passar também é fruto de muito investimento feito em promoção nos últimos anos. Atualmente, quando fazemos contactos com clientes de geografias distantes para falar de Portugal, já há uma perceção de qualidade. E quase todos estes clientes já fizeram experiências com produtos portugueses e é mais fácil comprarem a produção nacional. Os desafios são gigantescos e estarmos aqui a especular o que vai ser o mundo daqui a uns meses é muito difícil.

Esta semana devíamos estar pela segunda vez, em Bombaim, na Índia, na Fresh Produce. Já começámos a enviar alguns contentores com peras em maçãs para este mercado. São mercados que vão crescer muito e o desafio das cadeias de frio para estes destinos é muito grande. Ontem [entrevista realizada a dia 24 de abril] não houve feira, mas realizou-se uma conferencia via web com 600 pessoas de 60 países. Evidentemente há uma distância muito grande entre o proveito em estar numa conferencia online versus uma semana inteira numa cidade em contacto direto com compradores, mas fez-se um encontro de profissionais. É uma forma de contornar, tem um impacto completamente diferente, até porque os portugueses têm essa característica de se conseguirem integrar muito bem com os compradores de várias geografias do mundo e socialmente estabelecerem grandes relações, e é uma das grandes mais valias dos exportadores portugueses, estas pontes de entendimento e a parte social. E isso não se gere tão facilmente nas plataformas online.

Há uma nota de otimismo ou a incerteza ainda domina?

O otimismo tem sempre de ser mantido, estamos num setor onde os consumidores procuram os nossos produtos e mesmo no caso das plantas e das flores esperemos que exista uma retoma, e que as pessoas se sintam motivadas a jardinar mais e terem contacto com as plantas e isso fazer parte do bem-estar. Mantemos o otimismo, acreditamos que o setor vai ultrapassar esta fase, mas evidentemente tem de haver algumas medidas mais concretas que não sejam só o apoio imediato para reforçar tesouraria, reforço de algumas linhas de crédito ou a questão do lay off.  Há empresas em que se não houver uma ajuda comunitária específica será muito difícil retomarem a atividade que tinham porque as são perdas são muito avultadas. E nesse setor específico o otimismo é mais moderado enquanto não soubermos o que pode vir de ajuda comunitária.

*Entrevista publicada na edição de maio da revista VIDA RURAL.

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